A ideia de arquitetura

 

Não podemos, porém, definir a arquitetura como a construção de um espaço, pois há diferença entre a construção para satisfazer uma necessidade material e a arquitetura. Parece claro que o homem que apoia algumas folhas sobre troncos para se proteger da chuva tem intenção bastante diferente daquele que, com as mesmas folhas e troncos, protege a entrada da gruta onde mora e faz pinturas rupestres que contam as histórias do clã. O primeiro busca apenas uma solução momentânea enquanto o segundo planeja, aperfeiçoa e embeleza.

É nessa mesma época que encontramos as primeiras sementes do restauro. Afinal, contar todas as noites o mesmo mito no entorno de uma fogueira demonstra a intenção de manter uma memória que identifique os membros de uma mesma tribo.

Milhares de anos mais tarde, com o desenvolvimento das ferramentas, do conhecimento sobre os materiais, principalmente a pedra, a madeira e a terra, e dos primeiros estudos de matemática e física, o homem se torna capaz de construir enormes estruturas, como as pirâmides dinásticas no Egito ou das civilizações pré-incaicas no Peru. Estava concretizada a ideia de arquitetura.

Mas foi só no século I depois de Cristo que foi escrito o primeiro tratado de Arquitetura pelo arquiteto romano Marcos Vitrúvio Polião. Nele Vitrúvio aborda inúmeros assuntos envolvidos com a arquitetura, desde a salubridade das construções até o comportamento de argamassas. O conceito mais difundido desse primeiro tratado é conhecido como a tríade Vitruviana, no qual o autor considera que a arquitetura deve ter beleza, firmeza e utilidade.

A beleza é conceito já estabelecido, premissa básica da arquitetura e de outras artes. Guernica, de Picasso, é bela independentemente daqueles que sejam incapazes de percebê-la. Entretanto, firmeza e utilidade são conceitos bastante discutíveis. A ideia de firmeza depende da intenção do espaço construído, pois há arquiteturas propositalmente exauríveis, e a ideia de utilidade depende do pragmatismo do observador. Então, apesar de ampla, a tríade Vitruviana ainda não definia a ideia de arquitetura.

Mais à frente, na linha da história, por toda a Idade Média ou mesmo durante os períodos de efervescência intelectual como a Renascença ou o Fin de siècle (XIX) existiram diversos tratadistas que genialmente determinaram escolas ou períodos da arquitetura. Ainda mais recente, pais do Movimento Moderno cunharam termos que resumem toda uma complexa linha de pensamento como a “a máquina de morar”, de Le Corbusier, ou “menos é mais”, de Mies van der Rohe. Entretanto, ao menos de maneira simples, em nenhuma ocasião se encontra uma definição conclusiva da ideia da arquitetura.

Apresentada a complexidade do problema, permito-me usar o subterfúgio de definir a coisa com conceitos tão ou mais complexos que a própria coisa. Gosto da definição atribuída ao arquiteto espanhol Santiago Calatrava, que diz que a arquitetura é a união da filosofia com a estrutura. Uma frase concisa, mas muito pouco esclarecedora. Todavia, é a partir dela que pretendo numa próxima oportunidade discutir a ideia de patrimônio.

 

Marcio V. Hoffmann é sócio proprietário da  Fato arquitetura e da Taipal construções  em terra, coordenador da Rede TerraBrasil e conselheiro do Codepac .

Publicado em: 25 de junho de 2014

Adicionado em: Colunistas, Marcio Roffman

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