Patrimônio histórico

 

Se considerarmos que a arquitetura é a união da filosofia e da estrutura, parece claro que os quesitos que atribuem a ela o título de monumento histórico devem estar embasados tanto no pensamento filosófico como no conhecimento construtivo, aplicados ao edifício. Logo, monumentos históricos devem conter tanto a ideia do trabalho de construção como dos eventos que se desenrolaram durante essa construção. É nessa mistura – de tempo, trabalho e paisagem, em meio a sucessivas transformações – que se consolida o conceito de patrimônio histórico.

Mas o conceito de patrimônio histórico, que além dos monumentos arquitetônicos envolve toda sorte de representações da cultura de um povo, nasce no tempo de Leon Battista Alberti (1404‑1472) com a ideia de conservar um edifício pela única razão de ele ser um testemunho da história. É no Renascimento que a ideia de valor do patrimônio se consolida, a princípio como valor informativo e valor hedonístico. Esse novo paradigma inicia o conceito de patrimônio histórico e como seus valores são determinados.

Dentro do universo do patrimônio, é importante distinguir monumento de monumento histórico. O monumento é concebido com a finalidade de manter, no presente, um fato do passado. É, portanto, um significante construído que pretende se isolar, no tempo e no contexto. Por outro lado, o monumento histórico ganha valor de arte e de história em um momento posterior ao de sua criação. São exemplos disso o Monumento da Independência, erguido para comemorar o centenário da Independência nas terras que pertenceram ao barão de Rezende, e a Casa do Povoador, que de moradia simples se transformou em marco importante da memória de Piracicaba.

Dada a grande importância do patrimônio histórico para a memória e a cultura da sociedade, fica evidente a necessidade de preservação. A primeira normatização sobre conservação e restauração de patrimônio aconteceu na França, em 1887, com a criação da Comissão dos Monumentos Históricos. Essa legislação foi largamente embasada na teoria desenvolvida por Viollet-le-Duc (1814-1879) cujos conceitos são uma das duas principais referências na área de preservação e de enorme valor para a teoria e prática do restauro, desde que interpretados de acordo com as correntes filosóficas da época.

John Ruskin (1819–1900), contemporâneo de Viollet-le-Duc, também desenvolveu extraordinário trabalho sobre preservação. Em seu principal texto, The Lamp of Memory, Ruskin defendeu o não intervencionismo, se opondo assim aos ideais de Viollet-le-Duc. Também não podem deixar de ser lembrados os teóricos Camilo Boito (1836-1914), que escreveu Conservare eRestaurare (1893) e Alois Riegi (1858 ‑ 1905), com o texto O Culto Moderno aos Monumentos.

Hoje, o principal documento que orienta medidas de preservação é a Carta de Veneza, uma referência internacional para a conservação e o restauro de monumentos e sítios, publicada no II Congresso Internacional dos Arquitetos e Técnicos dos Monumentos Históricos ocorrido em Veneza, no ano de 1964. Os fundamentos contidos na Carta de Veneza estão fortemente alinhados com a Teoria do Restauro Crítico, de Cesare Brandi (1906 – 1988) que é, sem dúvida, o principal teórico de nossa época. São esses valores, histórico e de arte, que atribuem à arquitetura o título de monumento histórico.

Monumentos históricos são, portanto, instrumentos de memória que preservam os valores de uma cultura. Fica então clara a importância da salvaguarda desse patrimônio pela sociedade, seja ela representada pelo cidadão comum ou pelos órgãos de proteção. O funcionamento desses órgãos e a prática do restauro serão tratados numa próxima oportunidade. A conservação e o restauro são tarefas do especialista, mas vale lembrar a bela fala de Gabriel Garcia Marques, que em Viver para Contar diz ficar feliz ao voltar para Cartagena e perceber que havia sido preservada sua maior beleza, a idade.

 

Marcio V. Hoffmann é sócio proprietário da Fato arquitetura e da Taipal construções em terra, coordenador da Rede TerraBrasil e conselheiro do Codepac.

Publicado em: 25 de junho de 2014

Adicionado em: Colunistas, Marcio Roffman

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