Uma forma especial de amar

As avós ocupam a parte das lembranças boas da infância. Sua presença é crucial e inclui a transmissão de valores, conhecimento, amor e afetividade.

 

Por Isabela Andia

Corujas ou distantes, modernas ou saudosistas… Os tipos de avós são diversos e, muitas vezes, o tempo, a distância e outros contratempos dificultam o contato rotineiro com os netos. No entanto, quando os obstáculos são vencidos os benefícios são grandes para os dois lados: os netos podem aprender com a experiência acumulada pelos mais velhos ao mesmo tempo em que podem ensinar às avós as particularidades da modernidade.

Segundo a psicóloga e psicanalista Silvana Mantelatto, com experiência de 19 anos na área clínica, a convivência com os netos proporciona uma grande troca de afetividade reavivando nas avós as lembranças de como foi cuidar dos filhos e, com a chegada dos netos, elas podem sentir esta alegria novamente. “Já para os netos, o cuidado das avós é permeado pelas experiências de vida destas, que por já terem cuidado de seus próprios filhos fazem com que a convivência possa ser mais branda e sem muitos atropelos”, diz. Para a psicóloga, os netos usufruem muito dos momentos que têm com as avós por elas estarem na relação familiar, mas nem sempre com tantas obrigações, como os pais.

Raquel Beccari junto da filha Karina e dos netos Rodrigo e Gabriela - Foto: Nilo Belotto/Arquivo/JP

Raquel Beccari junto da filha Karina e dos netos Rodrigo e Gabriela – Foto: Nilo Belotto/Arquivo/JP

Além de ser um ombro amigo para dividir as confidências, dar apoio emocional, ajudar nas tarefas e orientar os pais, Silvana conta que as experiências que as avós trazem ao longo da vida podem ser de grande valia. “Não podemos esquecer que as avós são as mães dos genitores e que a educação deles passou por elas, e isso deve ser valorizado, seja na sua vertente positiva ou negativa”, pontua. Porém, de acordo com a profissional, a função da avó não é a de quem educa. Ela pode contribuir, mas a responsabilidade da educação deve ser função dos pais. “Vemos avós que se ressentem com esta questão, pois assumem muitos cuidados e responsabilidades com os netos, mas censuradas na hora de colocar limites; e vemos pais reclamando da interferência das avós, que elas permitem demais ou não respeitam a decisão dos mesmos”. Para Silvana, a chave para resolver o problema está no diálogo. “Como o que está em jogo é a educação das crianças, os pais devem dizer para as avós o que eles valorizam e priorizam para a educação de seus filhos, explicando que seus métodos de criação e educação podem ser diferentes, sem que isso comprometa a relação entre eles.”

As avós sempre foram figuras importantes nas estruturas familiares e na transmissão de valores entre as gerações. O conhecimento passado de pais para filhos se estende também para os netos. “Os mais velhos trazem as experiências vividas, tanto as boas quanto as más, e podem permitir à nova geração um aprendizado no qual são passados os conhecimentos adquiridos. Os mais velhos também têm muito a aprender com a nova geração que, na maioria das vezes, tem uma visão mais ampla de diferentes realidades., explica a psicóloga. Mas como estipular até que ponto a interferência da avó é saudável? Afinal, tanta coisa mudou. Segundo Silvana, embora não seja uma situação simples de se tocar é importante que os pais estabeleçam um limite. “Alguns pais delegam grande responsabilidade às avós, mas não têm claro até onde elas podem ir, seja por falta de parâmetros ou por não se sentirem à vontade para dizer até onde elas podem ir, e isso acarreta muitas vezes ressentimentos de ambos os lados”, afirma.

É importante lembrar que cada caso é um caso e que as estruturas familiares hoje em dia assumem inúmeras configurações por conta de outros inúmeros motivos. “Há famílias em que a avó é presença constante e imprescindível, cabendo a ela inclusive o cuidado dos netos enquanto os pais trabalham; já em outras, as avós têm uma participação mais social, não cabendo a elas tarefas específicas, como cuidar ou educar seus netos”, aponta a psicóloga. Na primeira situação, levando em conta a possibilidade de a avó e os netos morarem na mesma casa, a dica da psicóloga para estabelecer uma convivência ideal e saudável é que a única diferença no relacionamento seja somente a proximidade, já que avó é sempre avó, morando junto ou não. “O importante é os pais não delegarem às avós os cuidados que na verdade são seus, e as avós respeitarem os limites estabelecidos por eles.”

Silvana Mantelatto, psicóloga e psicanalista - Foto: Isabela Borghese/JP

Silvana Mantelatto, psicóloga e psicanalista – Foto: Isabela Borghese/JP

“A convivência com os netos pode contribuir com a qualidade de vida das avós reacendendo nelas o desejo pela vida e pelo cuidado deste novo ser”, relata a profissional. Desse modo, serem convocadas a ajudar, seja em tarefas diárias ou a colaborar com suas experiências em vários seguimentos do crescimento da criança, proporciona às avós um lugar de valorização e utilidade. “No geral, essa convivência favorece o afastamento de estados depressivos, pois muitas avós se sentem revigoradas por essa função”, explica Silvana, advertindo, porém, que não se deve transformar esse tipo de relação em regra, pois muitas avós querem aproveitar esse momento da vida para fazer outras atividades, como ler ou viajar, por exemplo. “É importante que elas possam escolher”, comenta.

Amor de avó

A chegada dos netos Rodrigo, de cinco anos, e Gabriela, de dois, representou uma enorme alegria na vida da dona de casa Raquel Beccari. Ela diz que já estava preparada há muito tempo para quando chegasse o momento de se tornar avó, portanto ao receber o resultado positivo dos exames de gravidez da filha os sentimentos foram de felicidade. Para a dona de casa a relação com os netos exige um grau de responsabilidade menor do que quando se está criando os filhos, por isso permite uma aproximação mais descontraída e com menos rigidez. “Embora tenha educado três filhos, não tive tempo de brincar com eles porque eram outras épocas, e agora eu tenho tempo de brincar. Sento no chão, mesmo que seja uma luta para levantar depois (risos) e brinco de cabana, de esconde-esconde, de desenhar…” Como Karina, sua filha, mora em outra cidade, todas as vezes que os netos vêm visitá-la Raquel tira o dia para ficar junto deles. “Eu não vivo sem meus netos. Quando eles vêm, eu os levo para o zoológico, para ver os patinhos na Esalq, faço piquenique no parque. Tudo para eles”, comenta, destacando que é uma avó corujíssima.

Quando o assunto é a educação dos netos, Raquel não hesita: “A educação eu deixo para mãe e pai. Quando eles fazem algo que eu não gosto, geralmente falo para eles, mas em um tom tão doce que eles não ficam com medo não (risos). Prefiro falar para a mãe e ela fala depois para eles o que fizeram de errado. E a auxilio muito nesta questão, e quando acho que alguma coisa não está certa, algo que ela não está percebendo, eu comento com ela para, posteriormente, ela dizer para eles”.

Para Karina, a relação de seus filhos com a avó é de grande valia para ambos e deve ser sempre estimulada, pois a família é a base de tudo. “Tendo uma família temos tudo. Uma família com uma boa educação certamente influencia muito na educação dos seus filhos”, salienta, reforçando que os valores familiares são passados de geração para geração.

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Publicado em: 17 de fevereiro de 2015

Adicionado em: Filhos

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