Senhor dos ponteiros: Comerciante Waldomiro Scarpari fala sobre as sete décadas à frente da relojoaria que leva seu sobrenome

Por Ana Rízia Caldeira

Disposição, atividade constante e dedicação são os principais ideais de Waldomiro Scarpari, que, aos 84 anos, trabalha à frente da Relojoaria Scarpari, negócio que leva uma tradição de mais de 70 anos na cidade. Terceiro filho de Antonio Scarpari e Andresa Novello Scarpari, Waldomiro é casado com Beatriz Scarpari e tem três filhos: Maria Cristina, Waldomiro e Marisol.

 

Ilustração: Maria Luziano

Ilustração: Maria Luziano

Como começou nos trabalhos com relógios? Desde os 12 anos eu exerço a profissão. Quando comecei trabalhar com relógio, tudo quando é joia que precisava de conserto vinha para mim. Trabalhava dia e noite, em Limeira, na casa do Herculano Khiel, um relojoeiro famoso de Rio Claro, e ele estava ficando com uma certa idade e perdendo a visão, mas aprendi bastante coisa com ele. Após dois anos assim, no princípio de 1947, meu papai, que morava em Piracicaba, faleceu.

Então voltei para cá e trabalhava de segunda a segunda, e nos domingos eram os dias de mais movimento, porque o pessoal do sítio vinha para assistir a missa e traziam ou buscavam relógios. Foi então que me estabeleci em um salãozinho aqui na Rui Barbosa e quando o Herculano mandava toda segunda-feira para mim uma caixa de sapato por intermédio do ônibus, cheio de relógios para consertos, eu consertava e na sexta-feira o ônibus passava e levava os relógios prontos.

Demorou algum tempo para criar uma clientela fiel? Por ter pouca idade, as pessoas da Vila Rezende não tinham ainda muita confiança no trabalho de um menino de 14 anos. Até que eu comecei a buscar relógio na casa do cliente, consertava, levava, ele pagava depois para confirmar se o relógio ficou bom.

Eu pegava de tudo: relógio de parede, de bolso, despertador e alguns poucos relógios de pulsos, que estavam começando a circular. E assim foi indo. Comecei a pegar serviço do Provenzano, que tinha uma loja na rua Boa Morte, da Relojoaria Rubi, do Gatti, Consomagno, Relojoaria Puzzi.

Chegava a consertar 200 peças por semana. Trabalhava dia e noite e graças a Deus comecei a me desenvolver, comprar máquinas modernas, ferramentas melhores e me estabeleci em uma loja mais bonita.

Depois fui desenvolvendo de tal forma que a Dedini (já trabalhei com Malu, a dona Norma, Armando, Leopoldo, seu Mário), em 1972, começou a presentear os funcionários que completavam 25 anos de firma com um relógio de ouro. Eu ia para São Paulo, comprava o ouro, levava para uma firma fazer as caixas. Em outro local fazia as pulseiras.

Comprava as máquinas e montava o relógio. Vendi uns 300 para a Dedini naquele ano. Como foi sua relação com a família Dedini? O Mário foi um grande amigo, ele mandava aqui na Vila, porque ele tinha uma visão extraordinária. Um dia ele me chamou e fa-lou: “Miro, você vai ser presidente da Sociedade Amigos da Vila Rezende”.

Ela ia bem, mas depois, sabe como é? Veio política e mudou tudo. Aí ficou um caos a associação. Seu Mário se interessava por tudo que era da Vila Rezende e me colocou como presidente, cargo que exerci por uma temporada.

É uma história longa, a sociedade ficou uma beleza e logo caiu na mão do Paulo Sega, que foi uma pessoa fantástica. Hoje ela ainda existe, onde funciona a Creche Ada Dedini Ometto. Quais outros cargos o senhor executou nesses anos? Fui presidente do Lar Betel por dois anos.

Quem me colocou lá foi a dona Antonietta Rosalina Losso Pedroso, diretora do Jornal de Piracicaba. Ela era maravilhosa, tínhamos uma amizade muito grande.

O Lar Betel estava em uma situação muito difícil, acabei pegando uma “bomba”. Tive a felicidade e sorte de ter como diretores o Flávio Risolo, Dalgo Migliolo, Reinaldo Meneghini, Nino Gobim — e seu filho Marco — e o comendador Antonio Lubiani.

Esse pessoal me ajudou muito. Ao lado do Lar tinha um casarão velho, que pedi ao prefeito Adilson Benedito Maluf para ceder à instituição. Demos um alento naquilo, graças a Deus. Fizemos banheiros bons, não faltava carne, pão, leite.

Nós tínhamos duas moças que faziam a dieta, reformamos a cozinha. Ficou uma beleza e para mim foi uma honra quando fui presidente de lá. Também estive na presidência do CDL (Clube dos Diretores Lojistas da Vila Rezende) e sou diretor da Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba).

Hoje ela vive um clima de sucesso fantástico, porque as pessoas da diretoria se dedicaram a fazer alguma coisa para a comunidade com uma gama de serviços, cursos maravilhosos, proteção ao crédito e a escola de negócios, por exemplo.

Juntos construímos um estacionamento, fizemos uma remodelação das salas, criamos alguns locais para depositar um acervo de documentos antigos, reformas, colocação de gás encanado e tantas outras coisas que foram acontecendo aos poucos e que me possibilitou permanecer lá até hoje. Hoje, sou diretor de patrimônio.

Fui galgando: já fui diretor de eventos, marketing, diretor de relações públicas… Nesses anos ocorreram mudanças no comércio de rua? Tudo mudou, né? Mas se você soubesse as famílias tradicionais que eu conheci aqui, foram tantas. Tinha a Papini, que mantinham um famoso restaurante, porque antigamente vinham pessoas e políticos de fora para Piracicaba e eram recebidos lá.

A rua era de um paralelepípedo ruim e passava bonde, ia até lá em uma estação da Sorocabana e depois voltava.

Por muitos anos, o bonde funcionou, até que depois o movimento foi crescendo tanto que a ponte Irmãos Rebouças, por onde ele passava, precisou ser reformada. Nessa época, as grandes empresas estavam aqui na Vila Rezende, como a Dedini e a Codistil, então o bairro tinha um poder aquisitivo elevado.

O senhor já enfrentou algum problema de segurança? Em uma ocasião eu fui assaltado. Na década de 1980, tinha um poste bem em frente à relojoaria e o pessoal subiu nele, entraram por cima e levaram quase tudo.

Descobri quem foi e superei, graças a Deus, não tinha outra maneira. Hoje em dia nós temos câmeras em todos os lugares.

Publicado em: 13 de março de 2017

Adicionado em: Especial

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