Polêmico, rebelde e emérito: Padre Otto Dana comemora 50 anos de ordenação com vocação sacerdotal, senso crítico e humor peculiares

Por Ana Rízia Caldeira

Nas colônias tirolesas, ao norte de Santa Catarina, Otto Dana cresceu entre as tradições da cidade Doutor Pedrinho, dos churrascos familiares, dos jogos de bocha e da ida as missas na capela municipal. Oitavo filho de Albino e Maria Dana, recebeu assim seu nome devido à origem italiana do número oito (otto), fato comum nas grandes famílias antigas coloniais europeias.

E foi justamente ele, o oitavo de 12 filhos, que teve a vontade de tornar-se padre ainda jovem. Com estudos, aprendizados e viagens da cidadezinha para o “novo mundo” de São Paulo, o menino tornou-se padre Otto, cura da Catedral de Santo Antônio, no centro de Piracicaba.

Em 50 anos de sacerdócio, sendo 35 dedicados à capela central, o eclesiástico aproveita agora uma vida tranquila ao lado dos cachorros e gatos, com os quais divide o tempo entre leituras, atendimento aos que buscam por seu aconselhamento e redação de artigos, publicados regularmente no Jornal de Piracicaba. Seus textos ficaram conhecidos devido a temas considerados polêmicos para um sacerdote, algo que ele tira de letra.

Nesta entrevista, além de comentar sua história em cinco décadas de igreja, Otto fala sobre temas como a emeritude e a construção de um controverso Palácio Episcopal para o bispo diocesano. Como começou no sacerdócio?

Onde eu nasci, a maioria das famílias tem descendência tirolesa e o charme de cada uma era ter, pelo menos, um padre ou uma freira entre seus membros.

Desde criança eu estava sempre ligado à igreja, como coroinha, e não sei se por inclinação ou por condicionamento fiquei me agarrando a essa vocação.

Então, passou um frade que percorria as comunidades perguntando quem teria interesse ao missionarismo. Nesse dia minha irmã errou minha idade.

Em vez de informar que eu já tinha 12 anos, disse ao pároco que eu tinha 11, e com essa idade os franciscanos não aceitavam que a gente se candidatasse.

Aí veio uma notícia de que os padres jesuítas estavam aceitando vocacionados para se preparar e trabalhar como missionários no Japão.

Saí de uma cidadezinha rural, com perfil de Saltinho, em que era acostumado com polenta e essas coisas, para me mudar até São Paulo, no Ipiranga, em um colégio japonês que me causava estranheza ao ver aquelas pessoas com os olhos puxados. Lá permaneci por dois anos, inclusive recebendo aulas de japonês, nas quais aprendi a falar, escrever e ler no idioma.

Foto: Claudinho Coradini/JP

Foto: Claudinho Coradini/JP

Depois o colégio fechou e deixaram os vocacionados irem para onde quisessem. Coincidiu de um padre da Diocese de São Paulo passar por lá e a ele manifestei minha ideia de seguir na carreira, indo para Aparecida do Norte.

Lá estudei e fiz o antigo curso primário e algum tempo depois me transferi a São Roque, passei por Aparecida novamente para estudar filosofia e voltei ao Ipiranga, onde estudei teologia. Nesse momento estourou uma crise sobre a formação de seminaristas no Conselho Vaticano e nós exigíamos que os sacerdotes lá do conselho que se readaptassem às novas orientações do Vaticano. Os bispos não aceitaram isso e mandaram embora 92 teólogos da escola, já em fase de ordenação para padres.

Sabendo disso, o bispo de Piracicaba, na época, passou por lá e recrutou a mim, ao monsenhor Jamil Nassif Abib (muito amigo meu) e mais uns dois outros padres para virem à Diocese de Piracicaba. Aí completei os estudos aqui e me ordenei padre no dia 18 de março de 1967, no Colégio Assunção.

Ilustração: Maria Luziano

Ilustração: Maria Luziano

Qual foi a atuação do senhor na cidade? Trabalhei nas paróquias de Analândia e Corumbataí. Lá também se iniciou uma crise e eu era aquele tipo de padre rebelde, que não ficava quieto por nada. O bispo retirou a mim e ao Jamil, quando estávamos trabalhando nessas duas cidades e em Rio Claro, e nos realocou aqui no centro da cidade, inclusive morando na casa dele. Daqui nós fomos mais ou menos encostados e celebrávamos um pouco na Catedral e no Convento das Irmãs, até que um tempo depois a coisa serenou e o bispo me confiou a administração da paróquia de Santa Terezinha.

De lá fui passado para a Catedral de maneira fixa, onde fiquei durante 35 anos. Aí chegou o Dom Fernando, que é de congregação religiosa, onde existem transferências.

Então um padre não podia ficar mais de cinco anos em uma mesma casa ou paróquia, e ele introduziu esse mesmo sistema para os padres diocesanos, que nunca tiveram problema em relação a isso e podiam ficar em um mesmo lugar até morrerem. Aconteceu essa ruptura, fui tirado da catedral e mandado para Rio Claro, e o monsenhor Jamil, que estava há mais de 30 anos lá, foi transferido para o meu lugar. Esse período passou como algo bem movimentado. Fora as questões religiosas, eu era muito envolvido com a parte política e social, e inclusive havia formado um trio aqui em uma época junto com Herrmann Neto, ex-prefeito, e o Elias Boaventura, então reitor da Unimep.

Éramos os três agitadores da cidade e se acontecia greve, passeata ou congressos, como o da UNI (União Nacional dos Estudantes), a gente mobilizava Piracicaba.

Também tive participação na mídia com meus artigos, geralmente contundentes e polêmicos, que me fizeram conhecidos por isso.

O que o senhor faz agora? Atualmente estou aposentado, ou emérito. A igreja faz uma distinção entre aposentadoria e a emeritude, então o padre ou o bispo, quando atinge os 75 anos de idade, entrega (isso é uma obrigação para os bispos) uma carta ao papa, colocando a Diocese à disposição, e se o papa aceitar ele é transferido. Agora, para padres, é diferente.

Como eu e o bispo não nos “bicávamos’ muito bem, ele aproveitou a oportunidade para me podar, e me tornou emérito. O senhor escreveu um artigo sobre isso.

Como o fato foi recebido na época? A Catedral se identificava muito comigo, então todo mundo se mobilizou. Haviam cartazes pela cidade contra a minha transferência, lembro que foi um rebuliço e um momento de ruptura na igreja de Piracicaba. Fui transferido e a Catedral, antes muito movimentada, foi fraquejando e quase virou uma igreja às moscas.

O fato é que ela nunca mais se recuperou aqui e nem em Rio Claro, onde aconteceu a mesma coisa com o senhor Jamil. Nunca fui de desistir, muito menos por isso.

Já enfrentei, com coragem, inclusive, a perseguição política no golpe de 1964. Os meus sermões na Catedral eram gravados e eram assistidos por elementos do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Uma vez eu visitei a rádio, que naquela época transmitia e gravava as missas das 18h ao vivo, e tinha uma prateleira cheia das fitas dos sermões que eu fazia e que poderiam servir de provas contra mim. Isso foi um dos grandes fatos que aconteceram e nunca me derrubaram.

Hoje, depois da chamada emeritude, vejo que ela foi uma forma de me isolar e de me fazer cair, porém eu nunca desisti. O que se faz após a emeritude?

Bom, o bispo nos fala que agora somos um coringa, como a carta do baralho. Então, se um padre te convidar para uma palestra, por exemplo, você aceita ou não aceita, mas não existe nenhuma responsabilidade com paróquias e rotinas antes exercidas. Acontece que, ao mesmo tempo, ele recomendava aos padres para não me convidarem mais porque ele não ia com a cara das minhas pregações, que são bem realistas.

Costumo pegar a mensagem do evangelho e trazer para 2017, por exemplo, atualizando o que foi escrito há 2.000 anos. Isso, para muita gente que está acostumada com aqueles sermões piedosos, é totalmente fora de seriedade. A maioria dos padres acaba colocando o que é antigo para um passado ainda mais distante, e fica essa coisa difícil de se entender.

Existiam e ainda existem aqueles que atravessam a cidade para ouvir o que eu estou falando, ao mesmo tempo em que há quem corre quando me vê na igreja (risos). Qual a posição do senhor quanto às diversas notícias da construção de um Palácio Episcopal para o bispo em um condomínio fechado em Piracicaba? Não me manifestei com um artigo, mas acho isso um absurdo.

No momento em que o país está em uma situação dessas, alguém obriga o povo a contribuir para construir um monumento em um condomínio fechado?

Que relação que isso cria entre o povo e o bispo? Para se entrar em um lugar assim é parecido a chegar em Guantánamo, cheio de portarias e seguranças.

Como a pessoa se sente ao precisar passar por toda aquela burocracia até chegar em um presbítero? Outro fato é que dentro de dois ou três anos ele também poderá ficar emérito.

Aí chega um outro bispo que não topa um negócio desses e tudo ficará um elefante branco. A diocese já tem uma casa para o sacerdote e ele poderia muito bem vender aquela, ir para um lugar mais simples e não levantar essa barbárie. Para construir isso, a cada ano as paróquias recebem um carnê de rifas que dá direito a um carro para quem comprou um número, mas esse é um processo ilícito e o povo que acredita se sacrificar para contribuir com algo assim nunca terá acesso ao tal Palácio Episcopal.

Isso também vai contra o testemunho, sobretudo para ele, que é religioso e todos sabemos que faz voto de pobreza. Como fica a observância desse voto é o que nós não entendemos.

O fato coincide com Dom Paulo Evaristo Arns, que, ao assumir como cardeal de São Paulo, a primeira coisa que fez foi vender o palácio e com o dinheiro arrecadado construir mais de 100 casas tipo paroquiais ou centros comunitários para o povo, enquanto estamos vendo o que faz o nosso bispo.

Publicado em: 20 de março de 2017

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