País em recuperação: Diretor titular do Ciesp, Álvaro Vargas avalia a atual fase econômica brasileira como um processo de melhora

Por Ana Rízia Caldeira

Entre crises e quadros de desemprego, o Brasil segue em busca de um “desafogamento” nas suas principais áreas de deficiência econômica.

O diretor titular do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), Álvaro Augusto Teixeira Vargas, avalia a atual fase do país como um processo de recuperação, algo que pode apresentar uma relevante melhora até o próximo ano. Natural de Vitória, Espirito Santo, ele está ligado a entidade desde 1996, momento em que se associou interagindo com os demais afiliados e participando por diversas vezes do conselho. Durante sua carreira, trabalhou na Secretária de Agricultura do Estado do Espirito Santo, foi professor da USP (Universidade de São Paulo) no CENA (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) e sócio fundador da Bioagri (atual Merrieux NutriScience). Atualmente é diretor presidente da empresa BRA Defensivos Agrícolas S.A., no ramo de defensivos agrícolas. Após grandes momentos de instabilidade e diminuição de postos de empregos, noticiados pelo Jornal de Piracicaba, Vargas analisa o futuro da economia nacional e regional, assim como os setores que melhor poderão levantar os ânimos da indústria piracicaba, e o governo brasileiro, que tem em mãos o trabalho de restabelecer o país.

Qual o trabalho desempenhado pelo Ciesp na região? A entidade atua com a finalidade de reunir e dar suporte ao empresariado. Na capital e no interior, são 43 unidades, com expressiva presença na defesa do setor industrial, na prestação de serviços e geração de negócios, oferecendo atendimento focado nas necessidades de cada região, que contam com assessoria especializada, como apoio jurídico coletivo (liminares), emissão de certificados de origem para exportação, emissão de certificados digitais, cursos, seminários, palestras, treinamentos e eventos, rodadas de negócios, meio ambiente, infraestrutura, qualidade, publicações diversas, cadastro industrial, diversos convênios com descontos e grupos de trabalhos nas mais diversas áreas.

No último mês foram divulgadas 250 demissões no município. A que se deve esse desaquecimento na área de empregos? Fevereiro é um mês propício à elevação desse número? A economia ainda está em fase de ajuste. A indústria está se adequando e as demissões no mês de fevereiro são, ainda, um reflexo da crise econômica. Temos de entender que Piracicaba está inserida na cadeia produtiva nacional e o país ainda está dando os primeiros passos para sair da maior crise econômica que temos notícia na história brasileira. A indústria de transformação foi severamente afetada e a recuperação ainda será lenta este ano, com melhor desempenho a partir de 2018.

Qual a justificativa para Franca e Bauru terem apresentado um saldo positivo em geração de empregos durante fevereiro enquanto passamos pelo contrário? Os empregos nas duas cidades (Franca e Bauru) foram gerados devido às exportações de artefatos de couro e calçados. Já em Piracicaba e região, tivemos variações negativas dos seguintes setores: produtos de metal (exceto máquinas e equipamentos), veículos automotores e autopeças, papel e produtos de papel, celulose e produtos de minerais não-metálicos.

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Ilustração: Maria Luziano

Como serão os próximos meses para o setor empregatício? Será positivo, tanto pelo início das contratações no setor sucroenergético (produção de açúcar, bioetanol e bioeletricidade), como pela recuperação gradativa da economia. Mas não devemos esperar, fora a sazonalidade desta atividade, um crescimento robusto em outras áreas. Entretanto, caso o cenário político seja positivo com o governo, conseguindo emplacar as reformas previstas (particularmente a da previdência), os investidores se sentirão mais otimistas para voltar a acreditar no Brasil e ampliar os investimentos. Desta forma, fica difícil fazer qualquer previsão econômica, pois tudo está atrelado a questões políticas que ainda estão confusas.

Quanto à economia, principalmente de Piracicaba, o senhor está otimista ou não? Em qual setor? Estou otimista, mas com um crescimento ainda modesto em 2017 e melhor desempenho em 2018. Com certeza, pela sazonalidade, o setor sucroenergético será um destaque de aquecimento econômico no setor industrial. Os demais crescerão de forma gradual e lenta, dependendo do cenário político e econômico. Mas existe um grande interesse do empresariado em voltar a investir e o otimismo é muito maior que no ano passado.

Qual a avaliação do senhor para o governo Temer e os impactos que ele tem na economia? É um bom governo e de influências positivas. Nas circunstâncias que o governo atual assumiu, um país “falido” e desacreditado pelos grandes investidores, devido à forma “irresponsável” que estava sendo conduzida a politica econômica dos antigos governos, o presidente Temer merece todo o nosso respeito e apoio. Evidente que a “classe política” em Brasília é complicada e o presidente muitas vezes fica refém de situações indesejáveis, pois necessita de maioria parlamentar para aprovar as necessárias reformas econômicas. Entendemos que ele terá sucesso, pois a alternativa, conforme propalada pela atual oposição, seria muito ruim para a economia e aumentaria ainda mais a crise com consequente estagnação econômica e piora do quadro de desempregos. Vamos torcer para que o presidente Temer tenha todo o merecido sucesso, porque esta é a melhor opção para o Brasil e para a classe trabalhadora.

O senhor se coloca a favor ou contra a reforma da Previdência social? Por que? Sou a favor, desde que esta matéria seja exaustivamente discutida com a sociedade. Hoje, na Previdência, o sistema como está funcionando acusa um grande déficit e sem esta reforma seria praticamente impossível manter o pagamento dos benefícios aos segurados e pensionistas. Ressalto, porém, a necessidade de que antes desta reforma seja eliminada a inadimplência dos grandes grupos financeiros com a Previdência pois, aparentemente, isto também é uma das principais causas deste déficit de caixa.

Na semana passada foi aprovado o projeto de lei da Terceirização. O que muda no cenário econômico do país e de Piracicaba? Esta sempre foi uma demanda do setor produtivo. A nossa legislação trabalhista não atende a época atual, pois está ultrapassada. Infelizmente, forças retrógradas tem retardado avanços como este que ocorreu na semana passada, permitindo a terceirização de todas as atividades da indústria. Com certeza será benéfico e aumentará a competitividade do Brasil, tão necessária no momento atual. Poderá também gerar mais empregos, pois a indústria crescendo e tendo lucros, novos investimentos serão realizados. O impacto econômico tanto no Brasil como em Piracicaba, será extremamente positivo, embora não tenha impacto a curto prazo, até porque a indústria ira gradativamente adaptar-se a este novo cenário. Mas a médio e longo prazo os resultados serão muito bons, aumentando a empregabilidade.

Acredita que muitas empresas locais vão aderir ao método de contratação de terceiros? Com certeza as empresas em Piracicaba irão aderir, principalmente em atividades sazonais, quando ocorrem picos de produção e torna-se necessária a contratação de mão de obra de curto prazo. Também, muitas atividades que a empresa possa terceirizar, de modo a dar maior ênfase em setores chaves da empresa, delegando certas etapas produtivas que não sejam tão relevantes e especializando ainda mais nas áreas que sejam essenciais para o crescimento da indústria. A terceirização é uma ferramenta poderosa e devemos aplaudir o avanço do Brasil rumo a uma economia mais desenvolvida.

Publicado em: 27 de março de 2017

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