Marcio Mariguela Marcio Mariguela

  • Amizade é uma festa

    PoMárcio Mariguela

    Nos rituais da passagem do tempo, as festas de fim de ano são invocadas para celebrar e reatualizar os laços afetivos familiares e de amizade. Confraternizar é renovar a esperança e o desejo de estar na companhia de quem reconhecemos a presença do amor.
    Cultivar a amizade exige um trabalho preliminar: saber distinguir o amigo verdadeiro do bajulador, o falso. Este tema é recorrente na história da cultura desde as narrativas míticas, no pensamento filosófico e na literatura. Na atualidade, quando o valor da amizade é definido pela quantidade de seguidores que o indivíduo possui no facebook é conveniente resgatar o aspecto mínimo desta distinção.

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    19 de dezembro de 2015 • Colunistas, Festas, Marcio Mariguela

  • Catálogo das paixões: odiar a si mesmo é autoflagelo

     

    A palavra paixão carrega consigo dupla rede de significação: por um lado, estar apaixonado é sentir um amor ardente, um estado de arrebatamento, contentamento, entusiasmo, bem querer; por outro, é provocar aflição, flagelo, tristeza intensa em alguém ou a si mesmo, malquerer. Amar e odiar são paixões primárias mobilizadoras de afetos e definem a relação pulsional entre o Eu e o objeto.

    O problema consiste quando o próprio Eu é o objeto de investimento do ódio. Pode parecer trivial quando no momento de raiva a sentença “Eu me odeio” é enunciada. Há, no entanto, uma dimensão inconsciente deste ódio a si que se revela na forma de um gozo masoquista: o prazer em sofrer, em imputar-se sofrimento sem causalidade somática, orgânica. Obter prazer na dor é um autoflagelo.

    Na edição anterior da Arraso destaquei o argumento do filósofo René Descartes no tratado As Paixões da Alma, publicado em 1649. Definiu seis paixões primárias que fundamentam todas as demais passíveis de catalogação: admiração, o amor, o ódio, o desejo, a alegria e a tristeza. No artigo 56, o amor e o ódio são designados como paixões e estão relacionadas à existência do objeto, permitindo estabelecer o juízo de valor bom e mau e, por extensão, o juízo moral bem e mal. Quando o objeto é bom nós o amamos; quando é mau, nós o odiamos. “Quando uma coisa se nos apresenta como boa em relação a nós, isto é, como nos sendo conveniente e aprazível, isso nos leva a ter amor por ela; e, quando se nos apresenta como má, nociva ou desprezível, isso nos incita ao ódio.”

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    25 de junho de 2014 • Colunistas, Marcio Mariguela

  • Catálogo das paixões: amor e ódio, as paixões primárias

     

    Nas edições anteriores da Arraso iniciamos o catálogo das paixões com o afeto mais exaltado na hierarquia das emoções: o amor. Ocorre que o amor nunca vem sozinho – aliás, como a maioria dos afetos. As paixões sempre formam um par antagônico e antinômico sem o qual não haveria conflito. As contradições entre estados afetivos constituem o elemento primário das paixões.

    Na cultura grega clássica a palavra páthos designava um estado de transbordamento de emoções e sentimentos incontroláveis. Nas narrativas míticas e no discurso filosófico desde a antiguidade, pathós era uma forma de nomear o conflito entre estados afetivos que causam perturbação, transtorno e obscuridade, afetando o juízo crítico e consciente. Os conflitos entre estados afetivos contraditórios causam os maiores transtornos. O caso exemplar é a oposição entre amor e ódio.

    O ódio também é um estado afetivo, uma paixão. Embora seja relegado à condição de maldito e condenado ao silenciamento pelo recalque moral das idealizações é preciso bendizer o ódio, reconhecê-lo, chamá-lo pelo nome e, sobretudo, aprender a conviver com sua inefável e inexorável presença.

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    25 de junho de 2014 • Colunistas, Marcio Mariguela

  • Catálogo das paixões: a Língua Paterna do Amor

     

    Seguimos catalogando as paixões. Dado o soberano valor atribuído ao amor, vamos abordá-lo pela linhagem (linguagem) paterna. Nossa referência é o mito, pois ele contém a primeira forma de representação das paixões. Muito antes da emergência do pensamento filosófico na Grécia (século 4 a.C) e do pensamento científico (século 17), os humanóides contraíram e construíram narrativas mí(s)ticas para designar as paixões.

    Nas edições anteriores da Arraso destaquei a filiação de Eros e sua transmissão pela língua materna. O ponto de ancoragem dessas reflexões nos foi transmitido por Platão no diálogo O Banquete. Relembrando: cada um dos convivas deveria fazer um elogio ao deus Eros. Estrategicamente, Platão deixou Sócrates por último. E, é claro, o irônico personagem arrasa. Sócrates contou ter ouvido de uma mulher, Diotima (sacerdotisa do templo de Afrodite) a seguinte história da fecundação de Eros: num banquete em comemoração o nascimento de Afrodite (deusa da beleza e dos prazeres), Póros se embriagou do néctar e adormeceu no jardim da morada de Zeus. Por ali perambulava Pênia, em sua penúria, nutria a esperança de recolher as migalhas do festim. Ao ver o belo Póros adormecido desejou ter um filho dele. Deitou-se ao seu lado e concebeu Eros, o deus do Amor. Eros é filho de Pênia com Póros.

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    25 de junho de 2014 • Colunistas, Marcio Mariguela